Quem assistiu desenhos animados nas dácadas de 70 e 80, deve recordar-se de um personagem muito peculiar por seu humor um pouco abaixo do que pode-se considerar adequado e sua forma de responder com frases longas, porém incompreensíveis à sua esposa que insitia em chamá-lo "Ô Zééééé..."
O Zé Buscapé! Um urso caipira indolente e extremante mau humorado que por omissão, permitia que várias situações acontecessem e sua esposa, Bié, tinha que tomar iniciativa. O ponto alto do desenho eram os resmungos do "Zé".
Não erguerei bandeiras sexistas afirmando que homens em geral são distímicos ou não articulam bem - o que até seria um bom lobby à psicologia e fono mas nada científico - porém olhando as figuras masculinas do meu mundo, eis que sempre acho um pouco desse Zé em meus amigos. Também não os estou chamando de indolentes! É uma questão de postura, como um resmungar constante diante da vida. Um ruminar de pensamentos que se manifesta através da emissão de sons peculiares.
Os homens do tipo Zé Buscapé estão em qualquer parte. Um namorado resmungão ou aparentemente indiferente, um chefe que delega muitas tarefas e nunca fica satisfeito com o teu trabalho, um supervisor de retornos evasivos. Um exemplo? A esposa explica durante dez minutos o projeto de compra de uma mesa nova para o marido que aparentemente presta atenção, quando termina pergunta "entendeu, Luís?" e como resposta tem um "Ah,- pausa - depois vemos isso" dito de forma que só ela depois de dez anos de convivência consegue decodificar.
Mas eles têm muito valor também. São charmosos e alguns muito especiais. Talvez pelo tempo que passam ruminando seus próprios pensamentos, se tornam muito sensíveis aos outros e tocam a alma com facilidade - ao menos a minha. Não obstante, abdicam de suas coisas para saber se vou sobreviver a um novo romance ou à primeira noite sozinha em casa. Amo os Buscapés que me cercam! Só nunca espero respostas imediatas deles, mesmo que estejam por perto, pois lá estão eles em suas redes, cachimbo na boca ruminando seus pensamentos...
Trilha incidental
Por isso meu amor
Não leve tão a sério
Se eu morro de medo
Brinco de paixão
Não vai ter graça o dia
que eu te vir na porta
e não souber se entro
ou faço uma canção."
(Nei Lisboa, Romance)